Vitória da Conquista, 14 de abril de 2008.
Viajei nesse sertão
Tantas coisas eu pude ver
Vi menino despido
De roupa
De alegria
De alimento
Sem graça
Sem contento
Vi mulher
Sem colar
Sem anel
Olhando o céu
Com olhar tão fiel
Vi homem triste
De tez pálida
Brigando com a vida
Sentado no chão
De mão esticada
Mendigando o pão
Vi boi emperrado
De olhar opaco
E pela sede sufocado
E pelo homem sendo puxado
Vi boi velando
Cheirando o chão
Saboreando o corpo
Do seu irmão
Vi casas
Pelo calor rachadas
Emolduradas pela poeira
E varas unidas
Aprisionando o chão
Vi a caatinga
Desprovida de folhas
E o cacto exibindo sua força
Vencendo a seca do sertão
Vi rios secos
Gritando a dor da sede
Sem vida
Morrendo
Esperando a providência divina
Ressuscitar suas águas
Vi igrejinha
De portas abertas
Com gente de fé
Clamando ao Deus Divino
Para a chuva cair
E molhar o solo ardente do sertão
Vi o Sol se escondendo
Entre as montanhas desbotadas
Parecendo tocha de fogo
Brincando de ser pintor
Deixando o céu
Com as cores do amor
Vi o dia morrendo
E a noite nascendo
Num céu sem Lua
E o homem na escuridão
De terço nas mãos
Carregando a cruz pesada
Da vida do sertão.
Lucineide Régis